Movimentos são captados pelas mais ínfimas das sensibilidades. Em todo somos como uno. Massas movem-se em harmonias na hora de ponta. Todos são suspeitos, olhares são trocados. Encontrões oferecidos em beneficio próprio, somente para não se perder a próxima carruagem. Todo o espaço é preenchido. Vozes sussurram por alguns conhecidos, em outros apenas impera o silêncio. "Próxima estação Marquês de Pombal a correspondência com a linha amarela", saio ainda atónito, espantado e com algum receio da multidão, que embora apressada, parece mover-se em letargia. Estática, mas imparável. Milhares de indivíduos passam diariamente incógnitos, pelas entranhas da cidade que ainda desperta da noite agitada, que assistiu mais uma vez as loucuras da noite. No congelamento desse instante, em que vislumbro pontos uniformes bailando por entre corredores e escadas rolantes. Todos por serem uno, assemelham-se uns aos outros, não sendo perceptível grandes diferenças. Ao pisar o ultimo degrau, o ar que aflora misturado com os escapes de carros que correm loucamente para conseguir a vaga mais próxima do local de trabalho, o cheiro é horrível, as minhas narinas retraem. Percorro sempre aqueles sagrados metros até a porta do maldito santuário, local onde passo a maior parte da minha vida. Todos são familiares, todos são cumprimentados sempre com um simpático "Bom dia.", mas profundamente desconhecidos. Volto mais uma vez ao sistema para continuar a limpar o trabalho acumulado do dia anterior, o ecrã do computador já tem gravado o meu rosto, as teclas patinam nos meus dedos. Olho em frente vejo aquela cara que faz-me sorrir de simpatia, sim, a minha colega de trabalho, amiga a que aguenta as neuras a que devo muitas vezes aquela mão gentil. Graças a Deus existe alguém nesse mundo que está presente. Mas não só, há também aqueles que sempre ligam preocupados, querendo combinar saídas. Mais uma amiga que sai todos os dias para almoçar, bendita, o prazer que sinto nessa hora bem passada. Peculiar e caprichosa a vida. Saio tarde, o vazio impera. A cidade parece limpa, poucas almas vagueiam pelas ruas, uns de regresso a casa, outros ainda de saída para a noite. O vazio não é só da cidade, o vazio é geral. Impregnado o meu coração, nessas horas todas a almas em sincronia retiram aquele objecto especialmente feito para a ligação entre as pessoas. Os números já estão sempre gravados na agenda, outros são números novos, talvez mais uma nova ligação. O número total de ligações é impossível de imaginar. Os toques de telemóvel, o ruído das carruagens, a paisagem escura que passa, foram de tempos a repetição de antecessores a nós. Um ciclo imparável este. O stress de chegar ao recanto domina todas as vontades. Ao chega a minha estação a vontade parece passar, vagueio pela rua a procura da minha estrela. Aquela a quem jurei a minha vida, a minha excelência, o meu sentido oculto estrategicamente por mim para defesa própria. Ela brilha no céu, não, não está só, brilha com outras tantas. Brilha e ilumina o céu com uma luz única, eu cá em baixo brilho e não deixo de iluminar as minhas ligações. O meu complemento está ainda vago, pois vagueio caminhos por trilhas familiares mas não reconhecidas. Chego a casa onde és reencontrada, o meu império, aqui permito-me sentir. Ao sentir, que consegui chegar perto de ti. Alivio, senti a tua falta.


Agora que estou aqui que tens a dizer?
Que mais podemos fazer senão viver.
Amar e deixar ser amado.
Encerrar os capítulos, as guerras.
Para nada mais nos ser retirado.

Estou vago em mim, estou completo no mundo.