Fomos projectados no tecto. A minha essência sorri. Os meus fantasmas libertam-se de mim, tornando-me mais maduro. Sinto-me solto... A minha alegria está centrada neste presente. Vivido até ao último suspiro. Vozes aclamam e valorizam o meu esforço. Esforço que não foi em vão. Toda a razão está conjugada não só no que sinto, mas da minha alma partilhada. Palpita-me muito.
Agora? Agora os sonhos são outros. Já sonho na tua ausência. Já não choro na tua partida. Vejo-te nítida, sensível ao meu toque… a visão de ti, inspira-me constantemente. Vou para a sala de estar, abro a janela e deixo que a brisa da manhã retire o cheio de casa fechada, deito-me no tapete de cores envolventes. O ar fresco, o silêncio, a luz do sol nascente, acompanham numa breve soneca. Fecho devagar as pálpebras e respiro a pleno pulmões até que começo a sentir a respiração como uma onda que vem e que vai. Fui mais uma vez embalado pelo sonho e a paixão embalou-me nos teus braços, sonhos de ti. Embora não consigo distinguir onde estou sei que és tu, a tua cara, o teu cheio, os teus olhos, a tua boca. Estamos encaixados um no outro como uma chave na fechadura, como uma enxada cravada na terra fértil. Acordo, dirijo-me ao quarto e a ti, o meu desejo de ti entorpece-me como se eu fosse um espumante fresco e picante capaz de dar o grau de embriagues necessário para os sentidos tocarem o ponto mais alto do céu. Tu sentias-te cada vez mais extenuada pelo meu corpo e pelos meus movimentos rápidos, ao aproximar de ti. O tempo parece tão lento, faz-nos perder a consciência. Peguei os laços de seda que durante a noite usaste para apertar-me os pulsos, mas para desta vez cingir os teus. Com as pálpebras cerradas faz-me intuir o teu desejo, ao te entregares a minha loucura. Pus-me em cima de ti , esfreguei a minha pele na tua, senti os nossos arrepios igualmente sacudidos por ligeiras ondas de prazer, os teus mamilos hirtos acariciavam-me o meu peito que picavam-me a pele lisa, a tua respiração encontra-se quente como a minha. Passo a ponta dos dedos pelos teus lábios massajando-os devagarinho. Senti a tua respiração no meu pescoço que sempre me faz suspirar. "Tu assim acabas por fazer-me enlouquecer" disse eu. Aproximas-te do meu rosto mantendo uma distância curtíssima e por isso bastante ousada e "Sim!", olhas-me de frente nos olhos "É o que tenho intenção de fazer". Voltamos a enfrentar a nossa batalha, selvagem e saborosa. A temperatura volta a subir. A luz que entra atrevidamente no quarto, torna-se indiferente a nossas investidas.
E no fim, tal como no início, somos projectados no tecto, entrelaçados nos nossos corpos e alma. A alma é danada, unidos como os filhos de um Deus só.