Gosto de me sentar na esplanada do Carlos, aos domingos de manhã, perto de casa. Sinto o sol a afagar as minhas costas, ouço conversas soltas e fabrico histórias, enquanto aguardo calmamente a chegada do precioso líquido negro.
 
Passou o Ricardo, velho amigo que não via há muito, e disse:
- ‘Tás bem mano?'
Acenei-lhe com um sorriso e retorqui:
- Tudo! E tu como vais?
Ele acercou-se e reparou:
- Bem, ainda andas a escrever?? Epá é mais um vídeo?…
Apontei para o tablet e expliquei.
- Estou a escrever, sim para um vídeo mas não consigo deixar de pensar na crise e nas trapalhadas.
- Sempre te vi escrever o que sentes, qual é o problema? (deixou escapar com nostalgia)
Lá fiquei a olhar e.... Entretanto Ricardo senta-se e abre o Jornal que trazia debaixo do braço. Hesitei, mas no instante seguinte apaguei tudo o que tinha escrito. Fui ao youtube e facebook procurar uma lufada de experiências novas. Li um post da Alpha Auer sobre o conteúdo(fotos) da home page do Second Life. Importa dizer , em suma a questão rondava o estilo que induzia em erro o incauto visitante. Em outras palavras, mostrava algo que não ia acontecer na realidade(virtual), além de ter um formato Disney/Heidi/Barbie. Fiquei pensativo, não pelas fotos e motivações do site, mas pelo comentário em si. Rebusquei na minha memória trabalhos que tenha feito ou visto com essa vertente, senti repulsa e não parava de me questionar porque temos a tendência de reproduzir as nossas experiências? Aquilo que assistimos, as marcas, os ícones? Fiquei confuso por pensar na implicância que tem os Direitos de Autor, patentes. direitos de cópia, reprodução, adaptação. E isso tudo ironicamente de uma forma ou de outra veio parar na corrente de pensamento sobre a crise. Como? Perguntei ao Ricardo:
- Ricardo, para ti o que é arte?
Ele leva a mão a boca, tosse (quiçá para não engolir em seco).
- Bem, arte para mim é tudo aquilo que vejo fora do padrão do normal, e que me crie empatia.
Puxei de um cigarro e o isqueiro, dei uma passa e perguntei.
- ok, vou-te mostrar um vídeo e vais-me dizer de uma escala de 1 a 10 o que achas.
- Chuta.
Abri o youtube e mostrei o The Arrival por  Iono Allen.

O Ricardo assistiu com atenção e exclamou. - Foste tu que fizeste isto tudo? Senti-me frustrado, em tom zangado devolvi. - Não meu! Estou a tentar perceber o que a arte no Metaverso transmite a alguém que nunca lá tenha entrado... Ele interrompeu-me e completou - Tu sabes que gosto dos teus vídeos. Enquanto me imaginava a espumar da boca...... Ele continuou a falar. - Pois como sabes eu não ligo a isso, dou nota 10. Respirei de alivio. Pensei que se o vídeo fosse uma pseuda representação da Barbie, a reação seria diferente. Quiçá, acho que também roça no gosto de cada um. Perdi o meu olha em Monsanto e só voltei, quando felizmente chegou o Carlos, com uma chávena de prazer, que me acalmou a alma. Adoro café.